Iniciativa da Secretaria de Estado de Saúde traz mais conforto a pacientes de UTI

Projeto Revigora usa a música para aliviar estresse hospitalar 

 

Em seu livro de memórias, Itinerário de Pasárgada, o poeta Manuel Bandeira (1986-1968) é enfático: “Não há nada no mundo que eu goste mais do que música”. Ele, que travou árduo combate contra a tuberculose, internado em sanatório numa época em que o bacilo de Koch era quase sempre fatal, acabou por viver até os 82 anos de idade, não somente como poeta e professor, mas também como compositor, tendo entre seus parceiros musicais o maestro Villa-Lobos, com quem fez “Modinha” e a segunda parte da “Bachianas nº5”, além de “Azulão”, parceria com Jayme Ovalle, um clássico do cancioneiro brasileiro regravado diversas vezes por intérpretes de estilos distintos, como Maria Bethânia e Maria Lúcia Godoy.

Se a música foi importante para a saúde de Manuel Bandeira, é difícil afirmar. Mas não é de hoje que se fala na capacidade terapêutica da música. Isso pode ser agora comprovado com o projeto Revigora, idealizado pela Assessoria Técnica de Humanização da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), e que visa proporcionar relaxamento e diminuição do estresse do paciente adulto internado nos Centros de Terapia Intensiva (CTI).

Segundo especialistas, a permanência no CTI de um hospital, onde o paciente recebe muitas informações sonoras e fica exposto à luminosidade, pode causar irritabilidade e alterações no sono.

“Os CTIs são setores fechados, com um histórico de relação fria, o paciente ali está debilitado, passa por um momento bem peculiar. É um lugar onde ele não consegue saber se é dia ou noite, o estresse hospitalar é grande”, explica Rafael Fornerolli, assessor técnico de Humanização da SES-RJ.

O Revigora propõe atenuar essa situação. Para implementar o projeto, cada unidade deve providenciar: wi-fi para conexão; 1 ou mais caixas de som que contemplem todos os leitos;  conexão com site de músicas; e sensibilização da equipe.

A ideia é baseada em outra iniciativa da SES-RJ, já implementada em UTIs neonatais, e que se chama A Hora do Soninho, quando ocorre diminuição de luz e ruídos para levar mais conforto aos bebês internados.

Fornerolli cita alguns estudos dos Estados Unidos, Canadá e Europa que demonstram a importância da música instrumental, notadamente a música de concerto para o bem-estar dos pacientes.

“A nossa proposta foi, inicialmente, colocar músicas de compositores como Mozart, por exemplo. Mas o projeto vai crescendo conforme a demanda. E hoje, dependendo da unidade, são utilizados outros estilos musicais, a depender da preferência do paciente”, explica.

 

Atmosfera serena

Em maio de 2024, o Revigora foi colocado em prática, diariamente, no CTI do Hospital Estadual Carlos Chagas (HECC), em Marechal Hermes. A ação consiste na reprodução, durante aproximadamente 20 minutos, de música ambiente, cuidadosamente selecionada, após o horário de visitas, promovendo relaxamento e conforto.

“Alguns pacientes solicitam músicas especiais. Sempre que possível, baixamos e tocamos como forma de acolhimento e carinho”, observa a cirurgiã vascular Ana Laura Valle Chaves, coordenadora da equipe multidisciplinar do CTI do HECC. Ela explica que, inicialmente, o projeto foi conduzido pelo Núcleo de Atendimento à Família (NAF) e hoje passou para a equipe de enfermagem.  Segundo ela, o Revigora busca criar uma atmosfera serena, contribuindo para a redução do estresse e favorecendo o bem-estar emocional de todos no CTI.

O Revigora acontece também no CTI da maternidade do Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti. Entre 17h40 e 18h, após as visitas e pouco antes da medicação e do jantar, são tocadas músicas instrumentais suaves.

“Eu percebi que, além de acalmar as pacientes, esse projeto as aproxima da equipe de enfermagem. Só pode acontecer mediante a aprovação das pacientes ou dos familiares, no caso de pacientes sedadas. Então, explicamos, antes, como é o projeto e pedimos autorização para que ele aconteça”, diz Nathalia dos Santos, gestora da UTI Materna.

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