Fisiculturismo: veja mitos e verdades sobre o bodybuilding
O fisiculturismo é uma modalidade esportiva que cresceu e se desenvolveu com o passar dos anos. O objetivo é a evolução e a definição muscular de maneira simétrica, de modo que a proporção dos músculos sejam estéticos e harmônicos, avaliados por jurados em campeonatos com premiações em ascensão. Por se tratar de esporte cada vez mais popular no Brasil, há muitas dúvidas e desinformação. Por isso, confira nesta reportagem 15 mitos e verdades sobre fisiculturismo.
1. Fisiculturista toma bomba
Esteróides androgênicos anabólicos (EAA) são hormônios produzidos sinteticamente que permitem o desenvolvimento mais acelerado das células e a divisão delas, estimulando o crescimento de tecidos, principalmente os ósseos e musculares.
Embora o uso de anabolizantes seja muito comum e permitido em competições de alto nível do cenário principal do fisiculturismo, nem todos os adeptos do bodybuilding fazem uso de esteróides.
Certas ligas naturais, como a Associação Internacional de Bodybuilding Natural (INBA), priorizam o ápice físico que uma pessoa pode chegar apenas com treinos e dieta regrada, sem nenhum tipo de influência de agentes externos durante a preparação para o campeonato. É o chamado fisiculturismo natural.
2. Esteróide faz mal à saúde
Por mais que o uso de anabolizantes possa ajudar no ganho de massa muscular mais rapidamente, se utilizadas sem acompanhamento profissional especializado e de maneira exagerada, podem ocasionar diversos problemas de saúde.
Em homens, é possível que ocorra o aumento do volume das mamas (ginecomastia), queda de cabelo e alterações de humor. Em mulheres, os efeitos masculinizantes são comuns, como o aumento de pelos corporais (hirsutismo), engrossamento da voz, diminuição dos seios, queda de cabelo, entre outros. Em ambos os sexos, o aumento da acne é bastante comum.
Esses efeitos colaterais ocorrem pois o uso prolongado de esteroides anabolizantes leva ao aumento exacerbado da produção de glóbulos vermelhos e a mudanças nos níveis de lipídios (compostos orgânicos essenciais) no sangue, e isso ocasiona em um aumento do colesterol ruim (LDL) e redução do colesterol bom (HDL).
Essas desregulações contribuem para o risco de complicações cardiovasculares graves, como hipertensão, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio e formação de coágulos sanguíneos.
3. Anabolizante causa infertilidade
Por causa do uso de anabolizantes, homens apresentam uma redução da produção de espermatozóides devido ao encolhimento dos testículos. Nas mulheres, é devido aos altos níveis de testosterona no sangue, que podem resultar na interrupção do ciclo menstrual e na diminuição da fertilidade.
Segundo estudo publicado no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, homens que fazem o uso prolongado de esteróides afeta o eixo hormonal hipotálamo-hipófise-gonadal (responsável pela produção de hormônios sexuais) e interrompe a produção de testosterona pelos testículos, comprometendo a fertilidade.
4. Dieta de fisiculturista é só batata doce e frango
Frango e batata doce são os alimentos preferidos dos atletas, pois possuem altos níveis de nutrientes e proteínas e não são muito caros. Frango é uma carne branca rica em proteínas e batata doce, diferente da inglesa, fornece bastante energia e, consequentemente, auxilia nos treinos. A combinação destes dois alimentos é pouco calórica e pode ajudar a manter a sensação de saciedade, o que pode ser útil no dia a dia dos esportistas. Mas não é o único alimento consumido pelos fisiculturistas.
Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, a recomendação diária indicada para pessoas que realizam treinamentos intensos rotineiramente é a ingestão de 1,2g a 1,7g de proteína por quilo de peso do indivíduo.
Para que haja uma boa adaptação dessa quantidade de proteínas na dieta do atleta, é necessário que seja realizado rodízio entre diferentes tipos de carnes (brancas e vermelhas), leite, queijos, grãos e suplementos, com a finalidade de balancear a dieta, a fim de manter a ingestão adequada de todos os nutrientes e controlar a quantidade de gordura saturada e colesterol.
5. Suplementos são essenciais
Conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os suplementos alimentares têm como finalidade fornecer nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos, servindo como complemento à alimentação, visto que, muitas vezes, a alimentação de um fisiculturista não é capaz de suprir todas as calorias necessárias durante a preparação.
Eles são importantes pois ajudam a melhorar o desempenho físico, a diminuir a fadiga e a gordura corporal e a minimizar os riscos de doenças. A suplementação também pode influenciar na recuperação dos músculos após o esforço causado pelos treinos e pelas competições.
Alguns dos suplementos mais utilizados pelos bodybuilders são a creatina, que auxilia no aprimoramento do desempenho em exercícios e na recuperação muscular pós-treino, e o whey protein, que ajuda a melhorar a composição corporal, corrobora no ganho de massa e auxilia na performance.
6. Só com suplementação é possível ganhar músculo
Suplementação é uma grande aliada dos atletas para ganho de massa muscular, porém não substitui a dieta. O uso de suplementos como whey protein, creatina e BCAA’s (aminoácidos utilizados para a construção e a reparação muscular) devem ser vistos como acréscimo e que abastecem o organismo com nutrientes e proteínas que, muitas vezes, não são absorvidos na alimentação.
Suplementos alimentares não devem ser considerados como a base do desenvolvimento muscular. Uma boa evolução deve estar associada à combinação de suplemento, treino e dieta planejada. Caso contrário, o físico não evolui.
7. Quanto mais carga nos exercícios, melhor o resultado
Certos fisiculturistas são conhecidos por realizarem treinos com cargas extremamente altas, como o caso do oito vezes campeão do MrO lympia Ronnie Coleman, que chegava a realizar treino de perna com mais de 1 tonelada, levando o corpo ao máximo.
Contudo, segundo estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fazer treinos com cargas muito pesadas pode ocasionar tendinites e teno-bursites agudas (lesões na região do quadril), o que compromete a longevidade do atleta.
O estudo mostra que o excesso de treino e carga pode trazer a longo prazo diversas sequelas, muitas vezes agravadas por micro-traumas de exercícios ou técnicas inadequadas de execução.
O mais importante para se evitar lesões é a progressão realizada de forma gradual e focada na execução correta de cada exercício, no controle dos movimentos e na ativação adequada dos músculos, que são mais importantes do que a quantidade de peso levantada.
Além disso, os atletas têm consciência de que o descanso entre as séries e uma boa qualidade de sono são cruciais para a recuperação muscular.
8. Fisiculturismo é só para homens
Fisiculturismo não é uma modalidade exclusivamente masculina. Desde os anos 1960 já existiam campeonatos amadores femininos, até que, em 1980, a National Physique Committee (NPC) começou a financiar alguns campeonatos, levando ao crescimento exponencial da categoria, o que possibilitou a a disseminação pelos Estados Unidos e, posteriormente, pelo mundo.
No Mr. Olympia, o mais importante campeonato do mundo, há seis categorias femininas: Ms. Olympia (Open Bodybuilding), Fitness, Figure, Bikini, Women’s Physique e Wellness.
9. Fisiculturistas são os atletas mais fortes do mundo
Por mais que fisiculturistas apresentem físico muito volumoso e definido, o intuito do treinamento não é o ganho de força e sim a hipertrofia, que serve para desenvolver e definir os músculos de forma localizada. O objetivo é aumentar a massa muscular e diminuir a gordura corporal, enaltecendo os músculos. Esse tipo de treinamento é realizado por meio de exercícios que “machucam” os músculos, causando uma inflamação na região e aumentando o volume. Portanto, não necessariamente os fisiculturistas são os atletas mais fortes do mundo.
No caso de ganho de força, os treinos são mais focados na repetição do movimento, buscando evoluir a execução, e não a musculatura. Esse tipo de treinamento é mais utilizado por atletas de powerlifting, que participam de competições de levantamento de peso e não necessariamente possuem físicos definidos.
Um dos atletas que vem se destacando nos dias de hoje é Willian Brito Piovezan, conhecido como Bitelo, que , na primeira participação, conquistou o título da categoria júnior no Campeonato Brasileiro de Powerlifting 2024.
10. Pré-treino é eficaz
Por ser suplemento que, como o nome já diz, deve ser consumido antes de cada treinamento, o pré-treino é utilizado por praticamente todos os fisiculturistas de alto nível. Um pré-treino tem compostos como cafeína, beta-alanina (auxilia na produção de carnosina, que ajuda na diminuição da fadiga muscular), vitaminas e minerais e é recomendado para adultos saudáveis que realizam treinos de alta intensidade.
No entanto, não existe comprovação científica de que o uso dessas substâncias combinadas realmente influenciam no desempenho do treinamento e consequentemente nos resultados. Conforme estudo publicado no American Journal of Health-System Pharmacy indica que esses produtos não apenas carecem de evidências científicas, como podem representar riscos à saúde de pessoas com hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e diabetes.
O objetivo do pré-treino é proporcionar maior resistência, energia e disposição ao atleta, contribuindo para uma boa performance. Contudo, não é possível comprovar que indivíduos que realizam o uso de pré-treino tenham melhores composições corporais em comparação com aqueles que não utilizam.
11. Os atletas bebem pouca água durante a preparação
A hidratação durante a rotina de treinos é essencial para a boa manutenção do sistema urinário, no entanto, durante a fase final de preparação, conhecida como pré-competição, uma técnica é bastante utilizada para proporcionar aos atletas uma maior definição muscular antes dos torneios.
Essa estratégia consiste em aumentar exacerbadamente o consumo de água uma semana antes da competição, elevando a quantidade dia após dia até o dia do campeonato, quando ocorre uma parada repentina do consumo de água por aproximadamente 12 horas antes de o competidor subir no palco.
Dessa forma, o organismo é influenciado a utilizar toda a água armazenada e, posteriormente, eliminar o líquido presente na região subcutânea dos músculos. Isso, combinado com a ingestão equilibrada de carboidratos, proporciona uma musculatura mais definida e densa.
Essa prática de desidratação é polêmica, pois pode tornar os músculos mais fracos e aumentar a fadiga, prejudicando a contração muscular, além de acumular compostos tóxicos no organismo pela carência na produção de urina, acarretando problemas de saúde.
12. Genética é o mais importante
Genética é um quesito que influencia na categoria que um fisiculturista deve escolher. Atletas endomorfos, por exemplo, apresentam uma maior capacidade de ganho de massa, o que pode ser útil em uma categoria pesada como a Open no masculino e a Women’s Physique no feminino, que apresentam físicos grandes e volumosos.
Genética pode determinar aspectos como a aptidão em definição muscular, a estrutura óssea do indivíduo, o armazenamento de gordura, a simetria muscular e diversos outros aspectos.
É nítido que atletas com boas genéticas têm uma maior facilidade de chegar ao estrelato, contudo, não é o único fator determinante.
13. É esporte bem pago
No início dos competições, não existiam patrocínios e as premiações não eram tão atrativas, fazendo com que diversos competidores optassem por seguir em carreiras secundárias para conseguirem se manter no esporte. Com a evolução e a popularização do fisiculturismo, essa realidade já não é mais a mesma.
De acordo com a Federação Internacional de Fisiculturismo & Fitness (IFBB), o lucro médio de um atleta de elite pode variar bastante dependendo da exposição do campeonato e o número de patrocinadores que cada bodybuilder detém.
Campeonatos de grande expressão como o Mr. Olympia oferece premiações que variam de US$ 12 mil (R$ 60 mil) a US$ 400 mil (R$ 2 milhões). O Arnold Ohio Classic fornece prêmios entre US$ 3 mil (R$ 15 mil) e US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão) para as principais categorias da competição. No caso do Arnold Brasil, as premiações variam entre R$ 5 mil a R$ 75 mil por categoria.
14. Bodybuilding é saúde
Geralmente esportes de alto rendimento exigem muito do corpo dos atletas. Os treinos extremamente intensos e o uso de substâncias sintéticas a longo prazo podem acarretar algumas sequelas, que muitas vezes se tornam permanentes.
O consumo de anabolizantes é um dos fatores que corroboram para o declínio da saúde do esportista, uma vez que o uso contínuo de doses elevadas desencadeia uma série de problemas como doenças cardiovasculares, infertilidade, distúrbios renais, disfunção erétil, infertilidade e, em caso mais graves, tumores.
Entre os problemas de saúde associados ao fisiculturismo, os que mais se destacam são os cardiovasculares, pois o uso descabido de substâncias é capaz de ocasionar lesões vasculares – que, em casos mais graves, podem causar infarto quando as artérias são afetadas.
Para as mulheres, a redução de calorias combinada com treinos muito pesados pode prejudicar a produção de alguns hormônios essenciais para o desenvolvimento muscular, o que acaba afetando a performance e a saúde a longo prazo.
15. Fisiculturista sofre preconceito
Nas décadas passadas, por causa da falta de conhecimento sobre o esporte, muitos adeptos ao bodybuilding eram discriminados por serem taxados como drogados, porque, na visão leiga do público, só com o uso de substâncias seria possível ter um físico volumoso. Porém, com a popularização da modalidade, foi mostrado que os atletas de alto nível realizam o uso de esteróides com acompanhamento médico e doses controladas, para minimizar os riscos à saúde.
Só o uso de anabolizantes não é o suficiente. É necessária a combinação de treino, dieta e suplementação para ganhar massa muscular. A disseminação de informação foi muito importante para mostrar os riscos e benefícios existentes no bodybuilding e também para inspirar pessoas a se exercitarem e cuidarem da saúde, sem que haja nenhum uso de substâncias, apenas para saúde e estética.
Muitos atletas como o brasileiro Ramon Dino e o canadense Chris Bumstead, o CBum, são vistos como inspiração para diversos jovens que buscam um dia mudar de vida por meio do esporte.
Além de ajudar pessoas que querem ter uma vida mais saudável, canais de influenciadores como Renato Cariani e Julio Balestrin são fontes de informação acessíveis muito utilizadas por admiradores do fisiculturismo.
Fonte:
Lucas Alexandre da Silva é treinador, ex-atleta de fisiculturismo e graduando em Educação Física pela Universidade Nove de Julho.